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Ficções Editora
C A P Í T U L O   1

O ENCANTO DA LUA NOVA
ALONSO ALVAREZ
Juvenil



Da nunca imaginada aventura que viveram Turista e seus amigos ao encontrarem o 11º andar, que não existia no prédio, onde morava Annabel, a bela feiticeira, prisioneira de um encanto.



Capa
LEIA: PRIMEIRO CAPÍTULO | OS PERSONAGENS
IMAGENS DA CAPA: FRENTE | 4ª CAPA | ABERTA
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ue história absurda, Turista! Você tá inventando tudo. Eu te conheço...

— Verdade, Band-Aid. Aconteceu do jeitinho que eu estou contando... Quer dizer, em algumas partes eu exagerei um pouco...

— O que, por exemplo?

— Que aquela aranhona subiu na minha perna...

— Não subiu? — protestou Ri. — Foi a parte que eu mais gostei!

— Não! Claro que não! Ou alguém já viu algum bicho subir numa perna toda mijada?

— Você se mijou?! — perguntou Treze.

— E quando me mijo de medo, mijo fedido demais! A aranhona saiu rapidinho de perto!

Todos riram.

— Mas aí a coisa melhorou — continuou Turista. — A aranhona saiu correndo e eu só fiquei olhando. Ela passou por duas pernas e se escondeu atrás delas, assim como o Lupicínio faz, de vez em quando; ficou só com a carinha pra fora, olhando pra mim, assustada...

— Au, au! — protestou Lupicínio.

— Aí eu levantei os olhos do chão, bem devagarinho... Primeiro vi aquelas pernas lindas... Lindas, lindas! Assim, iguais às da mãe do Treze...

— Não põe a minha mãe no meio — protestou Treze.

— Eram lindas! Lindas! Aí depois eu vi os joelhos, depois as coxas... Isso mesmo! As pernas não acabavam nunca e eu fui subindo com o olhar, sem piscar. Não dava pra piscar... Continuei subindo, olhando devagarinho, até que eu vi aquilo, bem no meio das pernas...

— Aquilo?! — exclamaram todos. — Você viu?

— Isso mesmo! Aquilo! Bem no meio das pernas dela... Toda peluda... Eu nunca tinha visto uma igual!

— Tá! E por acaso você já viu alguma? — gozou Contra.

— De longe, sim! Pelo binóculo já vi várias nos outros prédios. Até a da mãe do Treze já vi, quando ela anda pelada pelo apartamento...

— É melhor parar de colocar a minha mãe no meio — insistiu Treze.

— Aí eu continuei subindo com os olhos, devagarinho... De vez em quando eu voltava pra ver aquilo, mas fui subindo até chegar nos peitos dela...

— Seios! — corrigiu Band-Aid.

— Isso mesmo! Dois seios lindos! Lindos! Nem grandes nem pequenos, mas lindos, com as pontas bem vermelhinhas...

— Mamilos! — corrigiu Band-Aid.

— É! Com eles bem vermelhinhos!... Então continuei subindo com os olhos, mas sempre voltando pra ver aquilo e os seios dela. Aí cheguei no rosto dela, nos olhos dela: negros, um pouco escondidos entre o cabelo grande e solto, me olhando, sem piscar...

— E aí? — perguntou Treze.

— Aí ela sorriu pra mim... Ficou me olhando e sorrindo.

— E a aranhona? — quis saber Band-Aid.

— Subiu na mulher, até chegar no ombro dela. Ela puxou o cabelo pro lado e a aranhona ficou ali, olhando pra mim. A mulher deu um beijo no bicho e disse: "Beatriz, não se assuste. É só um menino." E que voz ela tinha! Que voz!

— Eu, hein! — comentou Contra. — Beijar uma aranha!

— Au, au! — concordou Lupicínio.

— Aí ela apontou uma poltrona — continuou Turista. — Pediu pra eu sentar. Com aquela voz, eu atendi na hora. A luz era pouca, então ela sentou-se numa outra poltrona, entre duas tochas, que se acenderam de repente, do nada, iluminando-a inteirinha, com as pernas cruzadas... Ela ficou assim, me olhando, o tempo todo, com aqueles olhos negros... Ameacei me levantar. Ela pediu que não. Aí ela perguntou o meu nome. Respondi. Ela disse o dela, sorrindo: "Annabel".

— Depois, o que aconteceu? — perguntou Band-Aid.

— Ela ficou me olhando, sorrindo, me deixando sem jeito. Ficou um tempão assim. Aí ela disse que ia fazer uma mágica. Levantou a mão, abriu e fechou bem devagar...

— Continua — pediu Ri.

— Agora não dá! Preciso ir ao banheiro. Tô apertado!

Turista levantou-se e saiu da sala.

— Aposto que ele pediu um tempo pra inventar o resto da história — comentou Band-Aid.

— Pois eu acho que não — discordou Contra. — Até agora ele não se perdeu em nenhum detalhe.

— Se for verdade mesmo, eu também quero conhecer essa mulher — falou Ri.

— Como? — rebateu Band-Aid. — 11.º andar só existe na imaginação do Turista. Neste prédio o elevador salta do 10.º pro 12.º, nem adianta ficar apertando o botão 11... Aposto que ele sonhou de novo...

— Tem sim! Eu estive lá! O 11.º andar existe! Eu vi! — gritou Turista, voltando do banheiro, fechando o zíper da calça.

— Se você molhou todo o banheiro, vai ter, Turista! — replicou Band-Aid. — Pensa que eu não sei que você gosta de mijar se afastando do vaso pra ver a força do jato?

— Nem vem! Todo mundo aqui sabe que eu sou imbatível no mijo a distância. Derrubo até lata de óleo vazia!

— Continua com o sonho — pediu Treze.

— Não foi sonho! Se fosse um sonho vocês acham que ia ser tão legal assim? O que me aconteceu, aconteceu mesmo, de verdade! Eu estava acordado, e muito bem acordado, com os olhos bem abertos... Foi assim: entrei no elevador pra apertar todos os botões e apertei o 11...

— Mas você morre de medo de elevador — lembrou Ri.

— Escuta!... Dá pra escutar?... Saí pra ir ao apartamento do Treze, então vi a porta do elevador aberta. Pensei que era alguém chegando com compras e fui fuçar... Sempre dá pra pegar um chocolate, um biscoito... Sabem como é que é?! Nessa de ajudar a tirar os pacotes dá tempo pra enfiar alguma coisa no bolso... Mas não tinha ninguém! Aí deu aquela coceirinha no dedo, incontrolável...

— Sei! — desdenhou Band-Aid.

— Fazer o quê? Sofro dessa doença, não posso ver botão de elevador...

— Tá! Continua, Turista — pediu Contra.

— Então... Aí aproveitei a oportunidade pra apertar todos os botões! Foi quando apertei o 11. Só que não deu tempo pra sair. A porta se fechou, de repente, e o elevador só foi parar lá...

— No 11.º andar?! — perguntou Treze.

— Lá mesmo! Então, pensei, faz tanto tempo que eu não ando de elevador que poderiam ter construído o 11.º andar e não tinham me avisado. Que só dava pra chegar de elevador, pois ainda não tinham reformado a escadaria do prédio...

— Mas é uma besta! — cortou Band-Aid. — Eu não acredito no que estou ouvindo!...

— O que você queria que eu pensasse? Eu estava lá, num andar que não existia...

— Continua, Turista — pediu Treze.

— Onde eu estava?

— No andar que não existe... — lembrou Contra.

— Aí... Saí meio desconfiado. Olhei o corredor e só vi uma porta...

— Só uma?! — espantou-se Ri.

— Só uma! Muito larga e alta, de madeira grossa, rangendo, cheia de teias de aranha, no fim do corredor...

— Rangendo? Teias de aranha? — assustou-se Treze.

— Tá bom! Exagerei um pouco! Não tava rangendo nem tinha teias de...

— Pára de inventar, Turista! — gritou Band-Aid.

— E você foi lá e bateu na porta? — adivinhou Ri.

— Claro! Já que eu estava lá, não custava nada. Mas nem precisei bater! Quando cheguei perto da porta, ela se abriu sozinha...

— Sozinha! — espantou-se Contra.

— É! E aí, já que abriu, eu entrei... Foi quando dei de cara com a aranhona...

— Isso você já contou — cortou Treze. — Continua de onde parou, na hora da mágica.

— Então... Ela tava sentada ali, na minha frente, entre duas tochas acesas, me olhando, sorrindo... Aí ela abriu e fechou a mão bem devagarinho, olhando pra mim o tempo todo e, na minha frente, sobre uma mesinha, apareceu um bolo de chocolate com um monte de cerejas em cima... Dá pra acreditar? Adoro cerejas!

— E aí? — quis saber Contra.

— E aí?... Aí, comi todo o bolo, todas as cerejas e, quando arrotei, já não estava mais lá, mas sentado nos degraus da escadaria, entre o 9.º e o 10.º.

— Quer dizer que você encontra um andar que não existe, entra num apartamento que não existe, encontra uma mulher pelada que nunca existiu, de cabelos compridos e com uma aranha no ombro, e aí devora, sozinho, um bolo de chocolate com cerejas, e depois, simplesmente, arrota?! — indignou-se Band-Aid, passando as duas mãos na testa e desarrumando ainda mais o cabelo.

— Mas... — emendou Treze, já entusiasmado com a história. — Mas se ela é capaz de fazer aparecer um bolo de chocolate do nada, ela é uma feiticeira, não é?

— Claro! — confirmou Turista, sem pestanejar e feliz com a nova amizade que acabara de fazer.

— Que história absurda! — comentou Band-Aid.

— Que seja! — falou Contra, fascinado com o relato de Turista. — Mas se essa história for verdadeira, se essa mulher existir mesmo, se ela for mesmo uma feiticeira, então, isso é legal demais!

— Também acho! — apoiou Treze. — E bem que ela podia resolver o nosso problema com o síndico...

— Au, au! — concordou Lupicínio, abanando o rabo.

— Boa idéia! — apoiou Turista, imediatamente. — Isso mesmo! Vamos agora mesmo pedir pra Annabel fazer um feiticinho. Quem sabe ela transforma o síndico num sapo...

— Sapo?! — cortou Treze. — Em sapo só se transforma quem é príncipe. Não conhece a história?

— Então numa lesma! — continuou Turista. — É bem o jeitão dele.

— Numa pulga! — sugeriu Ri.

— Au, au! — discordou Lupicínio, encarando Ri e mostrando os dentes.

— É mesmo, Lupicínio — falou Ri, passando a mão na cabeça do cão. — Numa pulga não dá. Já pensou aquela anta virar uma pulga e pular em você... Ele ia adorar!

— Au, au! — concordou Lupicínio.

— Isso mesmo! Essa idéia é ótima! — gostou Turista.

— Au, au! — discordou Lupicínio.

— Não! Pulga, não! — explicou Turista. — Mas em anta! Já que ele é uma anta, nada mais justo do que juntá-lo à espécie.

— Não! — protestou Band-Aid. — E você não sabe que é desumano manter uma anta num prédio? A coitada não ia caber no elevador nem conseguir subir e descer a escadaria. E logo todo mundo ia perceber...

— Ora, a gente fala que o síndico engordou um pouquinho, que ele sempre foi feio feito uma anta, só que ninguém tinha notado antes dele engordar...

— É desumano! — insistiu Band-Aid.

— Pois eu achei melhor a idéia da lesma — falou Ri.

— Pensando bem, também acho — concordou Turista. — Vou adorar jogar uma pitadinha de sal nela...

— É desumano! — repetiu Band-Aid.

— Droga, tudo é desumano! — inconformou-se Turista.

— Pois então, a gente podia pensar numa "coisa" — sugeriu Contra.

— Numa "coisa"?! — não entendeu Ri.

— Isso mesmo! — concordou Band-Aid, entendendo logo. — Assim não ofenderíamos nenhuma espécie animal.

— Em que "coisa"? — quis saber Treze.

— Qualquer coisa! — entusiasmou-se Turista, cheio de idéias — É só usar a imaginação: um pára-raio, um penico... Um penico! Isso mesmo! Seria ótimo!

— Gostei do pára-raio — comentou Treze.

— Se ninguém tiver outra sugestão, vamos votar: pára-raio ou penico? Vence a maioria... — propôs Contra.

— Num poste! — sugeriu Ri, em tempo.

— Au, au! — apoiou Lupicínio, imediatamente.



Lupícinio por Renata Gonçalves



BREVE APRESENTAÇÃO DOS PERSONAGENS PRINCIPAIS
APROVEITADA DE UMA CONVERSA ENTRE
O SÍNDICO E O NOVO ZELADOR



ão quinze andares, e não me pergunte do 11.º andar, ele simplesmente não existe! O elevador salta do 10.º para o 12.º, não adianta ficar apertando o botão 11. A construtora nunca deu uma só explicação, desconversam... Como o senhor viu, o prédio tem seis apartamentos por andar, exceto no 10.º, que tem um só apartamento, que ocupa todo o andar. Temos dois elevadores em bom estado. Encanamentos novos, sem problemas de entupimento... Um detalhe: todos os apartamentos têm a porta e as janelas da sala para o corredor, então, seja discreto ao entregar a correspondência — nunca meta a cara em janelas abertas para espiar a vida dos outros, entendeu?... Enfim, trata-se de um prédio aparentemente comum, quase normal...

      O zelador encarou o síndico sem entender a observação final. O interfone tocou. Ele atendeu, atrapalhando-se com os botões, demonstrando falta de jeito com o aparelho no seu primeiro dia de trabalho.

      — Quem é? — perguntou o síndico.

      — Tá mudo! Não tô ouvindo ninguém... Será que apertei o botão errado?

      — Não se preocupe, com o tempo o senhor se acostuma. Quando acontecer isso, dá uma pancada ali, perto do fio... Mas, como dizia, com o passar dos dias o senhor vai conhecer todos os moradores. Logo descobrirá o nome e o comportamento de cada um, então entenderá porque falei que este prédio é aparentemente normal...

      O zelador continuou não entendendo. O síndico então apontou:

      — Observe!... Aquele senhor idoso ali, que está en­trando, é cego... É o Sr. Jorges. Mora no 101, no apartamento que toma conta de todo o décimo andar... O velho possui uma biblioteca imensa, labiríntica, que dá voltas e mais voltas em todos os cômodos, não evitando sequer os banheiros, a cozinha e a área de serviço. Ajude-o sem­pre quando ele chegar com pacotes. Não é preciso apertar o botão no elevador, ele o encontra melhor do que qualquer um... Até desconfio que ele não seja cego, pois sempre volta da rua com pacotes de livros. Estranho, não?! Se é cego, por que ainda compra livros?

      O Sr. Jorges, que passava por eles, respondeu, sorrindo:

      — Ora, ora, Sr. Júlio! Não posso mais prescindir da companhia dos livros!

      O velho não parou. Tateando com a sua bengala, encontrou a porta do elevador, entrou, apertou o botão e subiu.

      — Viu?! — continuou o síndico. — É cego, mas escuta muito bem... Enfim!... Antigamente algumas pessoas se perdiam na sua biblioteca. Poucos, agora, se atrevem a ir lá, além de um bando de garotos e um cachorro vira-lata. Por isso, nunca entre nela sem marcar o caminho de volta, entendeu? Já perdi um zelador lá. O coitado nunca mais achou a saída. E um outro, encontrado muitos dias depois, delirava, recitando versos de um tal “Dante”. Fui obrigado a demiti-lo, ficou louco! Falava sozinho de lugares como Céu, Purgatório e Inferno...

      — Sim, senhor! — respondeu o zelador, assustado, fazendo três vezes o sinal da cruz.

      O elevador chegou trazendo Band-Aid, que saiu e logo trombou com o enorme pacote que uma entregadora deixara para um dos moradores. Era um fogão. Apesar da forte pancada, Band-Aid não se incomodou. Olhou para o joelho e percebeu que o tinha esfolado. Com bastante a­gilidade, tirou um vidrinho com mertiolate do bolso, uma pequena caixa com curativos, e cuidou do machucado ali mesmo, diante dos olhares do síndico e do zelador. Depois de alguns sopros, Band-Aid colou o curativo no joelho e, satisfeito, levantou-se, seguindo em direção à rua, assobiando.

      O síndico esperou ele sair e comentou com o zelador:

      — Esse daí é o Armando, filho único de um casal que mora no 89. Faz parte de um bando de garotos que o senhor logo vai ter o desprazer de conhecer... Esse aí não regula bem! Teimoso, nunca limpa as lentes dos óculos. Míope, não enxerga um palmo além do nariz. Cheio de frases filosóficas, afirma que prefere enxergar o mundo assim: desfocado, embaçado, senão viveria todo o tempo irritado. Dá pra acreditar!? Ele não tem mais do que doze anos! Aí, por causa das lentes sujas e engorduradas, vive trombando, tropeçando nas coisas pelo caminho, derrubando vasos, caindo, se machucando... Viu?! Ele tem manchas de mertiolate e curativos pelo corpo todo, e não se importa. Chamam-no de “Band-Aid” porque carrega sempre uma caixa de curativos no bolso. Mas, cuidado! Ele é muito esperto, ágil com as palavras. Vive no apartamento do velho cego, folheando livros e enciclopédias... Sempre tem uma resposta na ponta da língua... E é um craque nesse negócio de computador, Internet...

      Turista, que acabara de descer pela escadaria do prédio, aproximou-se dos dois e falou:

      — Êi, “sindicu”! Tem uma lâmpada queimada na escadaria, entre o sétimo e o oitavo andar. Providencie imediatamente a troca porque à noite eu vou sair, está claro? Isto é, não quero descer no escuro, entendeu, “sindicu”?

      E se foi. O síndico ficou olhando-o, contando até dez:

      — Esse gordinho folgado aí... — apontou-o para o zelador. — É o Gilberto. É mais um do bando. Mora no 12.º andar, mas não utiliza o elevador. Morre de medo, eu sei! Mas o moleque afirma que viveu uma experiência traumática. Inventou uma história absurda! Conta pra todo mundo que um dia entrou no elevador e apertou o botão vermelho. O elevador começou a descer e não parou mais, atravessou todo o planeta e só foi parar na China...

      — China?!

      — É, só sei que esse lugar fica lá do outro lado do mundo. Então, dá pra acreditar nessa história?! Ele pensa que somos idiotas! Chega a detalhes minuciosos sobre a viagem: que atravessou duas jazidas de ouro e uma de petróleo, e anda com algumas fotos no bolso dizendo que são de fósseis de dinossauros que tirou da janelinha do elevador enquanto atravessava as profundezas da Terra. Ainda tem o topete de ficar repetindo algumas palavras que afirma ser chinês. Vive se desculpando por não conseguir emagrecer porque andou muito tempo de cabeça pra baixo na China e é por isso que come tanto, pra compensar a falta de gravidade no estômago. Francamente, que imaginação! E o que é pior; devora inúmeros sanduíches lambuzados de maionese, catchup e mostarda enquanto sobe e desce a escadaria do prédio. É um porco! As paredes ficam encardidas porque ele limpa os dedos nelas... Cuidado com ele, vive aprontando. Não tem educação alguma: arrota, peida... Ainda bem que não anda de elevador! Todos aqui o chamam de “Turista”, porque, justificam os seus amigos do bando, ele foi o único morador deste prédio a conhecer um outro país, mesmo que tenha sido em sonho...

      O elevador chegou, aparentemente sem ninguém dentro. Logo se ouviu um arranhar na porta. O zelador aproximou-se para ver o que era. Olhou pela janelinha e depois abriu a porta. Lupicínio saiu. Passou por eles, alcançou a entrada do prédio e deitou-se perto do portão, estirando o corpo sob um raio de sol.

      — É um vira-lata que conseguiu o direito de morar neste prédio, contrariando frontalmente o regulamento — falou o síndico, inconformado. — Nem quero me lembrar desse episódio!... Chegou aqui com um menino chamado Alfredo, que mudou-se com os pais para o 53. Trocaram a casa onde moravam pelo apartamento, e trouxeram o cão a tiracolo. O vira-lata logo ficou amigo de todos aqui no prédio. Ele passa a maior parte do tempo com o Sr. Jorges, são grandes amigos. Fica horas escutando o velho cego rememorar poemas e histórias inteiros em diversas línguas. Sinceramente, eu nunca sei quando ele está latindo em português, italiano, inglês, francês ou espanhol! Enfim, depois de um tumultuado movimento pela sua permanência no prédio, contra a minha vontade, ele ficou. Na época, os os garotos fizeram de tudo para me afastar da função de síndico. Um incidente, dentro do elevador, acirrou os ânimos: quis botar o vira-lata pra fora e ele me mordeu. O animal, imediatamente, desmaiou, sem mais nem menos. Atravessou dias e noites seguidos com febre alta, delirando, quase entrando em estado de coma. A administração do prédio foi obrigada a cobrir todas as despesas com o veterinário e os remédios. Alegaram, os fedelhos, que a carne do meu corpo não prestava e que eu tinha intoxicado o cão. Dá pra acreditar?! Que humilhação! Por pouco não me afastaram do cargo. O dono do cachorro, o Alfredo, outro moleque do bando, ganhou o apelido de “Contra”, porque ousou lutar contra as regras do condomínio... Eu, simplesmente, não suporto esse vira-lata...

      Treze passou por eles. Voltava da padaria e, antes de subir pelo elevador, deixou um cheirinho de café moído na hora em toda a portaria. Encontrou com Ri, que descia. Subiram juntos.

      — O menino tímido que chegou é o Luís. Mora no 13.º andar. Mudou há pouco tempo. Veio com o pai, que se separou da mãe. Ela continua morando no mesmo apartamento em que um dia todos moraram... Veja, lá, naquele prédio, depois da avenida... Viu?... Isso mesmo, é aquele com a caixa-d’água azul... Então, ele, quando mudou-se, vivia fechado no quarto e nunca saía. Acho que sofreu com a separação dos pais. Mas os outros, do bando, sempre se lembravam dele para alguma festa, uma brincadeira, coisas assim que ele recusava em participar e, como não sabiam o seu nome, referiam-se a ele como “o menino do treze”. Aos poucos se aproximaram e ficaram amigos, trazendo-o para o bando. Ele próprio gostou do apelido e a partir daí todos o chamam de “Treze”. Estranho, não?! Descobri depois que ele vivia trancado em seu quarto espiando a mãe através de um binóculo. Já pensou?

      Lupicínio aproximou-se, parou diante do elevador e aguardou. Não esperou muito, soltou um latido, interrompendo a conversa dos dois, dando a entender que alguém lhe deveria abrir a porta. O zelador o atendeu, mas antes de fechar o elevador escutou um outro latido, pedindo que ele apertasse um botão. Não sabendo como, o zelador acertou o número desejado pelo cão, e apertou o 14.

      — Como dizia... — continuou o síndico. — Agora todo o bando se enfia no quarto desse Treze para ficar bisbilhotando nas janelas dos outros prédios. Já recebi reclamações, mas o que fazer?... Tá vendo aquela janela no último andar daquele prédio depois da avenida?... Isso mesmo!... Aquela última, à direita!... Ali mora uma senhora viúva que já reclamou comigo por causa desses moleques e nunca mais abriu a janela, a mulher não sabe mais do sol da manhã... Mas, uma outra, bela e jovem, veio até mim reclamar se eu tinha proibido os meninos de espiá-la, pois há duas semanas sentia a falta deles...

      Ri, que tinha subido com Treze, voltou com Lupicínio e saiu do prédio. Lá fora, encontrou-se com três meninos mal vestidos e sujos. Sentaram-se nos degraus da escada, na entrada do prédio, e ficaram conversando, animadamente.

      — Isso pode? — perguntou o zelador ao síndico, apontando para os meninos.

      — Ali na escada, como evitar? Mas de forma alguma deixe-os entrar no prédio. São pivetes, meninos de rua, cheios de vícios, malcriados, trombadinhas... O Ri, o Ricardo, já foi um deles: vivia nas ruas, pedindo esmolas, comendo restos de comidas, dormindo nas calçadas, e sabe-se lá o que fazendo por aí... Ele mesmo não imagina como foi abandonado. Há alguns anos o casal que mora no 145 o adotou. Mas ele nunca se distanciou de seus amiguinhos de rua. Sempre aparecem. Utilizam o vira-lata para chamá-lo...

      Marina chegou da rua, depois de um passeio com a bicicleta. Passou pelos meninos sentados na escada e provocou suspiros em todos. Guardou a bicicleta numa pequena sala com um monte delas, perto da portaria. Aproximou-se do balcão e perguntou:

      — Chegou carta da minha prima?

      O síndico olhou a correspondência e respondeu-lhe que não, mas entregou-lhe um envelope que ela logo reconheceu de quem era. Suspirou, irritada:

      — O Turista, de novo!

      Seguiu para o elevador, entrou e subiu.

      — Essa daí não é do bando; é uma espécie de musa pra eles. O senhor fique atento, porque senão eles sobrecarregam as linhas quando interfonam pra ela, principalmente o gordinho...

      O zelador, então, descobriu que o interfone não estava desligado, pois segurava o fone na mão, bem debaixo da conversa dos dois. Olhou para os botões e viu uma luzinha acesa. Sussurrou ao síndico, tapando o fone com a palma da mão:

      — Ihh! Acho que alguém escutou toda a nossa conversa... Quem mora no 132?



O Encanto da Lua Nova


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